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G.M.S.O. de Florianópolis pergunta: “Tenho NF1 e entrei na menopausa, estou com muito calorão, depressão e outros problemas. Já retirei o útero por causa de miomas. A médica receitou um medicamento à base de estrógeno. Ouvi dizer que hormônios aumentam os neurofibromas. Posso usar?”

Agradecemos sua pergunta, pois ela pode ser útil a outras mulheres com NF1.

O tratamento atual mais eficaz para os sintomas da menopausa é a terapia de reposição hormonal com estrogênio isolado ou combinado com progesterona. Além disso outros tratamentos não hormonais podem ser úteis (ver aqui).

Infelizmente, ainda não conhecemos estudos científicos específicos para mulheres com NF1 que tenham analisado o efeito da terapia de reposição hormonal sobre o crescimento dos neurofibromas.

Apesar da falta de estudos sobre a menopausa especificamente, algumas informações sugerem que os níveis dos hormônios femininos parecem não afetar o crescimento dos neurofibromas.

Por exemplo, as alterações hormonais da puberdade não aceleraram o crescimento do neurofibroma plexiforme em um estudo prospectivo (ver aqui).

Outro estudo baseado em ressonância magnética não encontrou diferença significativa nas taxas de crescimento de neurofibromas plexiformes ou cutâneos em gestantes com NF1 (ver aqui).

E a progesterona?

Por outro lado, algumas pesquisas sugerem um risco com medicamentos contendo progesterona (ver abaixo as explicações científicas).

Um estudo com 59 mulheres com NF1 que utilizavam contraceptivos hormonais (ver aqui) revelou que as preparações orais de estrogênio-progesterona ou de progesterona pura não estimularam o crescimento de neurofibromas na grande maioria (91%) dos casos. No entanto, duas pacientes que receberam contraceptivos de depósito com altas doses de progesterona sintética relataram crescimento tumoral significativo.

Por isso, o guia da associação norte-americana de genética clínica informa que os contraceptivos orais não parecem afetar o crescimento dos neurofibromas, mas a progesterona em altas doses exige cautela (ver aqui).

Em conclusão

A terapia de reposição hormonal (TRH) padrão na menopausa (que utiliza doses hormonais mais baixas do que os contraceptivos orais ou injetáveis ​​durante a gravidez) provavelmente apresenta um risco teórico baixo, mas não desprezível, de estimular o crescimento de neurofibromas, particularmente por meio da progesterona.

Se a terapia hormonal for considerada, utilizar estrogênio transdérmico em baixa dose (com a menor dose eficaz de progesterona para proteção endometrial, caso o útero esteja intacto) pode ser uma abordagem razoável, embora seja uma extrapolação e não baseada em evidências.

Devem ser discutidas alternativas não hormonais, como medicamentos como a gabapentina e terapia cognitivo-comportamental.

Para a síndrome geniturinária da menopausa, pode-se considerar o uso de estrogênio vaginal em baixa dose ou prasterona intravaginal, visto que a absorção sistêmica é mínima.

É aconselhável um acompanhamento clínico rigoroso da carga de neurofibroma (incluindo atenção ao crescimento rápido ou ao surgimento de novos sintomas) caso seja iniciada a terapia hormonal sistêmica.

No seu caso, cara G., que está usando apenas estrogênio para tratamento da menopausa, os conhecimentos atuais sugerem que não há risco de aumento dos neurofibromas.

 

 

Explicações científicas para as diferenças entre estrógeno e progesterona na NF1

Aproximadamente 75% dos neurofibromas expressam receptores de progesterona, enquanto apenas cerca de 5% expressam receptores de estrogênio clássicos. No entanto, 100% dos neurofibromas cutâneos expressam o receptor de estrogênio 1 acoplado à proteína G não clássica (GPER-1), e neurofibromas maiores apresentam maior expressão tanto de PR quanto de GPER-1 (trabalho da pesquisadora brasileira Karin Cunha com a participação do Dr. Riccardi – ver aqui).

In vitro, a progesterona aumenta a proliferação de células de Schwann derivadas de neurofibromas — particularmente aquelas com inativação bialélica de NF1 (NF1−/−), enquanto as células de Schwann normais não são afetadas.

Da mesma forma, o estradiol aumenta a proliferação de células de Schwann NF1−/− em até 99% in vitro.

Em um modelo de xenotransplante, o estrogênio aumentou o crescimento de todos os três xenotransplantes de tumor maligno da bainha do nervo periférico testados e de alguns xenotransplantes de neurofibroma dérmico, embora as respostas tenham sido heterogêneas entre os diferentes tipos de tumor.

Em conclusão, precisamos de mais estudos clínicos que verifiquem o efeito real da reposição hormonal sobre o crescimento dos neurofibromas.

 

Referências (clique nos links para ver os artigos em inglês)

  1. Expressão do receptor de progesterona em neurofibromas. (2003)

2 . Estudo clinicopatológico sobre o papel do estrogênio, da progesterona e de seus receptores clássicos e não clássicos em neurofibromas cutâneos de indivíduos com neurofibromatose tipo 1. (2021)

3 . As células de Schwann de neurofibromas humanos apresentam taxas de proliferação aumentadas sob a influência da progesterona. (2008)

4 . Efeito do estradiol, da testosterona e da gonadotrofina coriônica humana na proliferação de células de Schwann com NF1 ou genótipo NF1 derivadas de neurofibromas cutâneos humanos. (2018)

5 . Análise dos efeitos dos hormônios esteroides em células de Schwann tumorais NF1 humanas xenotransplantadas. (2010)

6 . Os contraceptivos hormonais estimulam o crescimento de neurofibromas? Um estudo com 59 pacientes com NF1.  (2005)

7 . Cuidados com adultos com neurofibromatose tipo 1: um recurso de prática clínica do Colégio Americano de Genética Médica e Genômica (ACMG). (2018)

8 . Efeito da gravidez na dinâmica de crescimento de neurofibromas na neurofibromatose tipo 1. (2020)

9 . Puberdade e crescimento tumoral de neurofibroma plexiforme em pacientes com neurofibromatose tipo I. (2014)

10 . Tratamento de sintomas vasomotores moderados a graves associados à menopausa (SKYLIGHT 1): um estudo controlado randomizado de fase 3. (2023)

11 . Como lidar com os sintomas da menopausa: perguntas e respostas frequentes. (2023)

12 . Tratamento dos sintomas da menopausa quando a terapia hormonal é contraindicada. (2025)

 

Pergunta (19/05/2015)
Olá. Tenho 40 anos, sou portadora de neurofibromatose do tipo 1 (NF1), como outras pessoas na minha família, e aos 22 anos tive câncer de mama (esquerda), o qual foi tratado com cirurgia extensa, quimioterapia e radioterapia.  Como sequela permanente daquele tratamento, meu braço esquerdo está sempre inchado, inflamado e com infecções frequentes, que me obrigaram a ficar internada em hospitais por várias vezes. Aos 27 anos apareceu câncer na mama direita, que também foi retirada e na mesma época, por causa de sangramentos menstruais frequentes, retirei o útero e os ovários, pois estes últimos estavam policísticos. Sem os ovários, entrei na menopausa, perdi a vontade de ter relações e desenvolvi osteoporose por não poder fazer a reposição hormonal. Hoje, sinto-me uma pessoa incapaz de trabalhar, discriminada por causa dos meus neurofibromas na pele, muito cansada, com insônia e dificuldade de me alimentar. O senhor acha que eu tenho direito à aposentadoria por motivo de doença? LBG, de São Paulo, SP.

Resposta
Cara LBG. Obrigado pelo seu depoimento, que pode ser muito importante para outras pessoas. De início, antecipo minha resposta pois, baseado nas suas informações, sim, acho que você deve entrar com um pedido de aposentadoria no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), pedido este que deve ser documentado com um laudo realizado por um (a) médico (a) com conhecimento das neurofibromatoses. Por exemplo, você pode ser examinada clinicamente em nosso Centro de Referência (basta ligar 31 3409 9560 e agendar a consulta pelo SUS) e depois disso, confirmados os problemas que relatou, receberá um laudo com as informações necessárias para entrar com seu pedido no INSS.

Vou agora justificar a minha opinião.
A NF1 é uma doença genética (autossômica dominante) que pode levar a diversas complicações, especialmente ao surgimento de tumores benignos múltiplos, assim como à transformação maligna deles. Portanto, a NF1 é uma doença crônica, incurável, progressiva e de caráter imprevisível, o que faz com que uma parte dos pacientes seja incapaz de levar uma vida normal e produtiva. Dentre as formas possíveis de gravidade da NF1 (mínima, leve, moderada ou grave), os achados clínicos que você relata permitem classificar a gravidade da sua doença como grave.
Entre outras complicações, a NF1 aumenta a incidência de determinados tipos de cânceres, entre eles o câncer de mama (3,5 vezes mais comum nas mulheres com NF1 do que na população em geral), leucemia mieloide crônica e o sarcoma do estômago, segundo um importante estudo realizado em 2011 pelo Dr. Gareth Evans e colaboradores (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3746274).

A NF1 apresenta grande variação de uma pessoa para outra, mas entre as principais complicações a NF1 pode causar dificuldade de aprendizado na maioria das pessoas com a doença, graus diferentes de desordem do processamento auditivo em praticamente todas elas, discriminação social por causa dos neurofibromas na pele ou neurofibromas plexiformes deformantes, dificuldade de relacionamento afetivo, distúrbios alimentares e do sono, tumores nos nervos ópticos, além de cifoescoliose e outros problemas mais raros.

Diante disso, a NF1 transforma algumas das pessoas acometidas em portadoras de necessidades especiais. Já está em vigor uma lei no Estado de Minas Gerais (Lei 3037 2012) desde 2014, que estende os benefícios da Lei dos Portadores de Necessidades Especiais aos portadores de Neurofibromatoses. É importante lembrar que a NF1 isoladamente não garante os direitos especiais, sendo necessária a comprovação das deficiências específicas, sejam elas físicas, intelectuais e/ou sociais.

Considerando o exposto acima, cara LBG, creio que seus problemas são graves o suficiente para impedi-la de trabalhar regularmente, o que justifica o seu pedido de aposentadoria por invalidez junto ao INSS.