
Recebemos nesta semana um artigo científico que procurou saber se os inibidores MEK, como selumetinibe e mirdametinibe, podem ser úteis ou não no tratamento de gliomas ópticos sintomáticos em crianças com NF1.
Vejamos o estudo.
Título: Selumetinibe como terapia-alvo em gliomas pediátricos progressivos de baixo grau – Série de casos (pLGG) (ver aqui artigo completo em inglês).
Sabe-se que os gliomas da via óptica ocorrem em 15% a 20% das crianças com neurofibromatose tipo 1 (NF1) e cerca de 1 em cada 3 deles pode causar sintomas, como baixa acuidade visual e/ou puberdade precoce.
Quando não produzem sintomas, os gliomas ópticos nas crianças com NF1 podem ser acompanhados clinicamente sem intervenções medicamentosas nem cirúrgicas, mas quando produzem sintomas o tratamento padrão atual baseia-se na quimioterapia, mais comumente com carboplatina e vincristina.
Esses medicamentos podem controlar o tumor em parte das crianças com glioma óptico na NF1 (ver aqui quando indicar a quimioterapia ), mas estão associados a toxicidade significativa e geralmente não restauram a função visual.
Nos últimos anos, os inibidores MEK (drogas que inibem a multiplicação celular, como o selumetinibe e o mirdametinibe), têm sido usados em neurofibromas plexiformes sintomáticos e inoperáveis na NF1.
Imaginando que o mecanismo de crescimento dos gliomas seja parecido com o do crescimento dos neurofibromas, um grupo de médicas e médicos decidiu avaliar a eficácia e a segurança do selumetinibe em crianças com gliomas ópticos progressivos associados à NF1, avaliando os resultados radiológicos e visuais com o uso da droga.
Eles revisaram três pacientes pediátricos com NF1 e gliomas da via óptica progressivos, que foram tratados com selumetinibe na dose de 25 mg/m² / dia. Em um caso, o selumetinibe foi iniciado como segunda linha de tratamento após o tumor continuar a crescer depois da quimioterapia tradicional. Nas outras duas crianças, o selumetinibe foi administrado como tratamento inicial. A resposta tumoral foi avaliada por ressonância magnética e a função visual por meio de avaliações oftalmológicas seriadas.
Segundo os autores, os resultados apresentados mostraram que os pacientes apresentaram redução ou estabilização radiológica do tumor, com melhorias clinicamente significativas na acuidade visual. Uma criança obteve recuperação visual quase completa. Mais uma vez, segundo os autores, o tratamento foi bem tolerado: os eventos adversos foram leves, predominantemente dermatológicos e não foram observadas toxicidades sistêmicas graves.
Os autores então concluíram que “estes casos preliminares sugerem que o selumetinibe pode ser uma opção terapêutica segura e eficaz para gliomas da via óptica relacionados à NF1, oferecendo controle tumoral significativo com um perfil de toxicidade favorável em comparação à quimioterapia. Além da estabilização, seu potencial para restaurar a função visual representa um grande avanço, reforçando o papel potencial da inibição de MEK como estratégia de tratamento de primeira e segunda linha”.
Comentário nosso
Vejamos a seguir como interpretamos os casos relatados:
Caso 1: uma menina de dez anos que antes do selumetinibe apresentava perda grave da visão no olho direito e continuou na mesma situação depois do tratamento. O olho esquerdo não foi afetado pelo tratamento (ver figuras e dados apresentados no artigo). Portanto, apesar dos efeitos colaterais (feridas na boca e eczema na pele), o tratamento reduziu levemente o tamanho do glioma, mas não trouxe benefícios para a criança.
Caso 2: uma menina de 5 anos, que apresentou redução da acuidade visual em ambos os olhos (10/10 passou para 5/10) antes do tratamento e que depois normalizou a visão (10/10 em ambos os olhos). O glioma reduziu levemente de tamanho, mas não se falou de efeitos colaterais e não podemos garantir se a melhora da visão ocorreu espontaneamente ou por causa do tratamento.
Caso 3: um menino de 6 anos, que apresentava redução da acuidade visual (2/10 no olho direito e 4/10 no olho esquerdo) que melhorou a visão depois de 18 meses de tratamento (7/10 no direito e 9/10 no esquerdo, sem redução no tamanho do glioma. Os efeitos colaterais foram pele seca e descoloramento do cabelo.
Em resumo, a visão melhorou em duas das crianças e não se alterou na terceira, mas não houve relação com o tamanho do glioma, como está mostrado no quadro abaixo:
| Criança | Visão | Tamanho do glioma |
| 1 | Perda inalterada | Redução leve |
| 2 | Melhora | Redução leve |
| 3 | Melhora parcial | Inalterado |
Portanto, não percebemos uma relação segura entre causa (tratamento) e efeito (mudança visual e tamanho do tumor).
Em conclusão, nossa impressão é de que o impacto clínico deste estudo é bastante limitado, pois foram apenas 3 crianças observadas e isto não nos permite ainda obter conclusões seguras que sejam aplicadas à maioria da população com NF1 e glioma óptico sintomático.
Por isso, precisamos de dados rigorosos de ensaios clínicos mais bem controlados com inibidores MEK:
- Realizados com número maior de crianças com NF1 e glioma sintomático (baixa visão ou puberdade precoce)
- E comparando crianças usando inibidor MEK com outras que sejam apenas observadas clinicamente (grupo controle).
Esperamos que estes estudos sejam realizados o mais breve possível para que possamos indicar ou não estes medicamentos inibidores MEK com segurança nos gliomas ópticos sintomáticos nas crianças com NF1.
Agradecemos a leitura prévia deste texto pelo oftalmologista Dr. Samuel Magalhães, que também nos enviou artigo científico de 2016 sobre o uso de outro quimioterápico (Vinblastina) no tratamento de gliomas óptícos (inclusive em crianças com NF1): https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.2016.68.1585

