Este espaço é destinado a opinião de pessoas com experiência em diversos assuntos relacionados com as neurofibromatoses.

Sabemos que as pessoas com NF1 podem passar mal no calor (ver aqui), por isso fiquei feliz em saber que o Sistema Único de Saúde está se preparando para enfrentar as mudanças no clima, inclusive as ondas de calor.
Antes de trabalhar com as neurofibromatoses, fui pesquisador durante vários anos na Universidade Federal de Minas Gerais, onde trabalhei com a adaptação humana ao calor, então pretendo contribuir com o esforço do Sistema Único de Saúde (SUS), no presente Governo Lula, para o enfrentamento dos impactos das ondas de calor sobre a saúde pública brasileira.
Por isso, preparei uma cartilha para profissionais da saúde e para familiares de pessoas com NF1.
Se desejar conhecer o que são as ondas de calor e como elas afetam a sua saúde, basta clicar aqui para ver o texto completo.
Selecionei do texto completo três informações sobre as ondas de calor que podem interessar a você.
1 – O que acontece quando o corpo aumenta muito a temperatura (chamamos de hipertermia) numa onda de calor?
Não confundir com FEBRE, veja aqui.
A figura abaixo mostra sinais e sintomas que podem ser moderados (menos de 40 graus centígrados de temperatura interna) ou graves (mais de 40 graus de temperatura interna).

2 – Teste o seu risco
O quadro abaixo mostra um teste simples para conhecer seu risco de passar mal durante uma onda de calor.
| Condição | Sim |
| Mais de 60 anos ou menos de 10 anos | |
| Gênero feminino (dobrar pontuação se for gestante ou na menopausa) | |
| Obesidade (IMC maior que 30) | |
| Reside em região fria ou temperada | |
| Sedentarismo | |
| Mora em casa sem aparelho de ar-condicionado | |
| Possui doença cardiovascular, neurológica, renal, diabetes, câncer ou NF1 | |
| Usa algum medicamento para coração, para os rins ou neurológico | |
| Trabalha em ambiente quente e úmido ou sob o sol | |
| Já passou mal no calor (desmaio, náusea, confusão mental, “febre”, desidratação, pressão baixa) | |
| Total |
Em termos práticos, quanto maior a pontuação, maior o risco de uma pessoa apresentar hipertermia durante uma onda de calor, portanto, ela deve receber mais cuidados.
3 – E como tratar uma pessoa em estado de hipertermia durante uma onda de calor?
Os procedimentos básicos imediatos para tratamento de uma pessoa com suspeita de hipertermia moderada (temperatura interna menor que 40 graus centígrados) recomendadas pela medicina especializada em ambientes naturais, são:

Remoção da pessoa do ambiente quente
Resfriamento natural e rápido com imersão na água fria ou molhando as roupas e promovendo ventilação
Medir a temperatura interna porque ela define se deve ou não ir para o hospital (ver abaixo comentário)
Hidratação oral
Repouso
Provavelmente estas medidas são suficientes para tratamento da hipertermia moderada, mas se houver mais recursos disponíveis, além das medidas acima, recomenda-se:
Remover a pessoa para ambiente com ar-condicionado (menor que 20 graus centígrados)
Resfriar o corpo o mais rápido que puder:
Imersão em água o mais fria possível (quanto mais rápido o resfriamento corporal, menor mortalidade e sequelas)
Se não puder ser feita a imersão, cobrir todo o corpo com compressas de gelo. Se não houver como fazer imersão ou colocar compressas de gelo, usar ventiladores sobre as roupas molhadas (menos eficiente)
Hidratar com líquidos isotônicos ou hipertônicos (para manter o volume sanguíneo e controlar as cãibras) e, se necessário, por via venosa (não há evidência de benefício em se usar infusão gelada)
Elevar as pernas e, se possível, colocar meias de compressão nas pernas para aumentar o retorno do sangue para o coração
Não usar aspirina, nem anti-inflamatórios ou outros antitérmicos!
Nota importante: como medir a temperatura interna?
A medida mais prática da temperatura interna é a medida da temperatura retal. Alternativamente, pode-se usar a temperatura timpânica ou esofagiana. Em último caso, a temperatura axilar pode ser usada, mas sabendo-se que ela pode não refletir exatamente a temperatura interna.
A medida da temperatura interna é um desafio que as equipes de saúde precisam enfrentar daqui em diante, pois há alguns anos, num estudo que fizemos em dois grandes Hospitais de Pronto Socorro em Belo Horizonte, nem mesmo a temperatura axilar era medida rotineiramente no atendimento inicial. O SUS precisa incluir esta norma em suas orientações para enfrentar as ondas de calor.
Na suspeita de hipertermia grave (temperatura interna maior que 40 graus centígrados e/ou outros sintomas graves), usar todos os recursos anteriores enquanto se transfere a pessoa para um hospital de emergências e além das medidas acima, acrescentar:
Suporte ventilatório (com oxigênio)
Suporte cardíaco (com monitorização eletrocardiográfica para detectar arritmias e da pressão arterial)
Medida da temperatura retal (ou timpânica) (maior que 40 graus confirma a gravidade)
Monitorar o volume e a cor da urina para avaliar o estado de hidratação
No hospital deve receber cuidados intensivos porque podem desenvolver as seguintes complicações:
Estado de choque com falência múltipla de órgãos
Encefalopatia (tremores, confusão mental e agressividade durante resfriamento rápido)
Insuficiência respiratória
Lesão hepática e renal agudas
Rabdomiólise (lesão muscular grave)
Coagulação intravascular disseminada
Isquemia intestinal com septicemia
Os detalhes do tratamento intensivo fogem ao objetivo deste texto, mas todas as medidas terapêuticas devem ser tomadas enquanto se continua o resfriamento do paciente. Até a temperatura interna (retal) atingir 38,3 a 38,8 graus centígrados, o resfriamento ativo deve ser mantido (ver detalhes aqui).
As equipes de emergência precisam criar condições técnicas (salas especiais e ambientes adaptados) que permitam o resfriamento por imersão em água gelada enquanto outros procedimentos são realizados.
A equipe médica deve também fazer o diagnóstico diferencial com: hipoglicemia, epilepsia, doença do sistema nervoso central, hiponatremia, hipernatremia, edema cerebral de alta altitude, infecção grave, alteração endócrina grave e ingestão de drogas.
Veja mais informações no texto completo AQUI.
Portanto, cuidemos da vida.
Dr Lor
A maioria das famílias tem dificuldade em falar sobre uma doença genética na família. Muitas vezes os pais protelam por anos o momento de explicar para a própria criança as causas de suas manchas, de sua dificuldade de aprendizado, dos exames médicos e outros acontecimentos na sua vida que a tornam diferente das demais crianças.
Este é um dos assuntos abordados na excelente live no canal Enfermeira Rara realizada pela enfermeira Milena Silva (portadora de NF1) com a médica Maria Carolina Melo Feitosa (mãe de uma menina com NF1) e coordenadora do grupo de WhatsApp Ninguém Fica de Fora.
Vale a pena assistir!
Abraços
Dr Lor
Clique no link para ver a gravação da live:

Uma revisão científica recente (ver aqui artigo completo) trouxe informações sobre muitos estudos em andamento, mostrando os avanços no tratamento da NF1 realizados em todo o mundo.
Considero essa revisão completa e por isso adaptei abaixo as principais conclusões do estudo, desejando que em 2026 mais resultados sejam obtidos para que possamos melhorar nosso atendimento às pessoas com NF.
Vamos renovar nossas esperanças!
Dr. Lor
A NF1 tem sido e continua sendo uma doença genética desafiadora por causa da complexidade do gene e dos mecanismos da doença, que levam a manifestações clínicas variáveis, com alta taxa de casos novos.
Os recentes avanços na compreensão da estrutura complexa do gene NF1 e da arquitetura e funções da proteína neurofibromina inspiraram novo desenvolvimento para tratamentos mais direcionados.
As novas abordagens terapêuticas concentram-se principalmente na terapia de inibição de vias metabólicas intracelulares (em especial a via MEK), com algumas drogas já aprovadas para uso clínico, como selumetinibe e mirdametinibe, que acrescentaram nova opção ao tratamento cirúrgico tradicional da NF1.
Os inibidores MEK (iMEK) não são curativos e podem apenas estabilizar a progressão tumoral, portanto outros métodos terapêuticos são necessários para outras manifestações da NF1, especialmente para a prevenção, o controle e a cura de tumores malignos associados à NF1.
A terapia gênica, ou seja, corrigir o defeito genético no próprio DNA, promete mudanças mais fundamentais para restaurar a neurofibromina funcional.
O uso de alguns vírus (como o adenovírus), que já é uma ferramenta de tratamento genético seguro e amplamente utilizado, tem sido amplamente explorado na terapia gênica da NF1 recentemente.
Devido ao fato do gene NF1 ser muito grande e exceder a capacidade de carga de um único vírus, as pesquisas atuais priorizam a correção de partes funcionais do gene (domínios), especialmente os denominados GRD.
Além disso, a engenharia do uso de vírus é aplicada para melhorar a afinidade de drogas a serem entregues nas células de Schwann (que são a origem dos neurofibromas), reduzir a toxicidade fora do alvo e aumentar o efeito terapêutico. Esse tipo de entrega de parte do gene NF1 funcionou bem em estudos pré-clínicos em vários modelos de NF1 e oferece potencial para avançar o desenvolvimento de medicamentos. Parece um campo promissor para terapia futura, então a validação pré-clínica e os ensaios clínicos adicionais são necessários para aplicações mais amplas.
Outros métodos terapêuticos emergentes, como vírus que atacam células cancerosas, também oferecem ferramentas promissoras para terapia direcionada. Alguns já foram aprovados para tratamentos, como para o melanoma, mas ensaios clínicos adicionais são urgentemente necessários para a expansão do seu uso na NF1.
Outras estratégias celulares e de pequenas moléculas para NF1, incluindo uma terapia com células chamadas CAR-T e terapia de inibição molecular, também estão sendo investigadas. Embora a terapia com células CAR-T enfrente desafios devido à barreira de aplicação em tumores sólidos, especialmente naqueles tumores sólidos da NF1, ela apresenta potencial para ganhar preferência no tratamento da NF1 por meio de administração sistêmica e não apresenta a preocupação com anticorpos antivirais, ao contrário do uso de vírus.
Em resumo, estão sendo amplamente estudadas as vias de sinalização intracelulares relacionadas à NF1, além dos inibidores de MEK, buscando terapias com pequenas moléculas para atuarem em determinadas vias e reguladores epigenéticos relacionados à NF1. Para futuras transformações em medicamentos, a toxicidade e a resistência requerem validação adicional em ambientes pré-clínicos e clínicos.
Cada estratégia terapêutica emergente para NF1 apresenta pontos fortes e limitações distintas:
- Abordagens de terapia gênica, como a substituição do gene NF1mediada por vírus visam restaurar o defeito genético, mas enfrentam desafios relacionados com:
- capacidade limitada de carga dos vírus,
- pouca sua afinidade do vírus com as células que desejamos tratar,
- imunidade preexistente
- segurança a longo prazo.
- O HSV oncolítico depende da permissividade intrínseca do tumor e frequentemente requer injeção local, o que restringe a distribuição sistêmica e limita o acesso a lesões profundas.
- A terapia com células CAR-T enfrenta desafios como heterogeneidade antigênica, infiltração limitada de células T em tumores sólidos e efeitos fora do alvo.
- Inibidores de pequenas moléculas direcionados a RAS, PAM, RTKs, JAK/STAT ou reguladores epigenéticos frequentemente produzem apenas respostas parciais como monoterapia e são limitados por toxicidades sistêmicas.
Em conjunto, vemos o potencial de terapias combinadas racionais entre os métodos terapêuticos mencionados acima, por exemplo, combinando a terapia gênica com vírus com um inibidor de MEK ou com a terapia com o HSV para melhorar a eficácia terapêutica.
No entanto, essas terapias combinadas também requerem mais validação pré-clínica e clínica para aprimorar os efeitos terapêuticos.
No futuro, a integração dessas terapias avançadas na prática clínica poderá tratar mais pacientes com NF1 com diversas manifestações da doença e curar ou controlar a progressão de tumores malignos associados à NF1.
Quando chegarmos lá, haverá tratamentos mais personalizados, eficazes e seguros, que levarão a uma sobrevida prolongada e melhor qualidade de vida para todos os pacientes com NF1.

