Ontem (24/5/2026), durante nosso Seminário Anual sobre Novos Conhecimentos em Neurofibromatoses, realizado na Faculdade de Medicina da UFMG, o Dr. Bruno Cézar Lage Cota foi homenageado pela AMANF com o Troféu Mônica Bueno, oferecido às pessoas que contribuem para o conhecimento, atendimento, acolhimento e qualidade de vida das pessoas com Neurofibromatoses (NF1 e Schwannomatoses).

Dr. Bruno foi saudado pelo Dr. Nilton Alves de Rezende em nome da diretoria da AMANF, mencionando os doze anos de dedicação do Dr. Bruno à pesquisa, atendimento e ensino das Neurofibromatoses, motivo pelo qual ele vem se juntar a um grupo de pessoas que têm engrandecido o trabalho da AMANF (ver aqui).

Dr. Bruno tem atividades principalmente vinculadas à Universidade Federal de Minas Gerais e ao Centro de Referência em Neurofibromatoses do Hospital das Clínicas da UFMG, nas áreas de Clínica Médica, Neurofibromatose, Processamento auditivo e cognição e Musicoterapia/treinamento musical em NF1. (Ver seu currículo completo aqui)

Dr. Bruno é médico do Hospital das Clínicas da UFMG, possui mestrado e doutorado pela UFMG, participa de pesquisas sobre treinamento musical em adolescentes com NF1 com transtorno do processamento auditivo e atua em projetos de extensão e assistência médica pela Faculdade de Medicina da UFMG. Também participa de congressos internacionais sobre neurofibromatoses levando nossos trabalhos científicos e representando o CRNF/UFMG.

Além disso, Dr. Bruno é artista, músico e compositor, atividade que enriquece a sua alma e acalenta o coração de todas as pessoas que se aproximam do seu temperamento amoroso, humanista e criativo.

Ao Dr. Bruno, o agradecimento da AMANF e do CRNF em nome das milhares de pessoas atendidas pela nossa associação e pelo nosso ambulatório.

Diretoria da AMANF

 

 

Pergunta de M.J. de Caratinga, MG: “Por que meus neurofibromas cutâneos aumentaram a partir da adolescência?”

Cara M., de fato, muitas pessoas com NF1 relatam que seus neurofibromas cutâneos surgiram a partir da adolescência (puberdade).

Ainda não conhecemos um estudo científico que tenha medido o crescimento dos neurofibromas cutâneos antes, durante e depois da puberdade, para sabermos se a puberdade muda a velocidade de crescimento dos neurofibromas.

No entanto, um estudo com uma pergunta parecida foi realizado com os neurofibromas plexiformes (ver aqui estudo completo): a puberdade adolescência aumenta o crescimento dos neurofibromas plexiformes?

Sabemos que existem 3 tipos de neurofibromas (ver aqui mais informações):

  • os cutâneos (que podem se tornar visíveis depois da infância),
  • os nodulares (que podem estar presentes desde o início da infância ou na vida intrauterina)
  • e os difusos (que se formam na vida intrauterina).

Quando os nodulares e difusos são múltiplos ou se misturam com os demais tecidos do organismo podem ser chamados de neurofibromas plexiformes.

Então o estudo da Dra. Chelsea Kotch e colaboradores (2023) comparou a velocidade de crescimento dos neurofibromas plexiformes de 25 jovens com NF1 e neurofibromas plexiformes que tinham pelo menos 4 ressonâncias magnéticas dos tumores, sendo duas realizadas antes da puberdade e duas realizadas depois da puberdade.

Os resultados mostraram que a puberdade e as alterações hormonais relacionadas com ela não aumentaram a taxa de crescimento dos plexiformes. Ao contrário, o estudo encontrou uma taxa maior de crescimento antes (1,8%) do que depois (0,8%) da puberdade.

Este estudo não pode ser aplicado diretamente aos neurofibromas cutâneos, pois eles podem ter mecanismos diferentes de formação, mas, por enquanto, o estudo sugere que a puberdade pode não ser um fator de crescimento importante dos neurofibromas.

Este estudo reforça nossa impressão de que talvez a puberdade não seja a causa do aparecimento dos neurofibromas, mas apenas o momento em que os neurofibromas cutâneos se tornam visíveis, ou seja, pode haver uma coincidência com o tempo necessário para que os neurofibromas fiquem grandes o suficiente para serem percebidos na pele, pois eles crescem muito lentamente.

Para entendermos isso, lembramos que todas as células de uma pessoa com NF1 apresentam uma mutação em uma das metades (alelos) do gene NF1(a metade paterna ou materna). Para haver a formação do neurofibroma é necessário que ocorra uma segunda mutação na outra metade do gene, deixando a célula sem nenhuma neurofibromina funcionando.

Mutações em um dos alelos do gene NF1 ocorrem na pele de todas as pessoas de forma aleatória, por acaso, ao longo da vida. Quem não tem NF1, continua com a outra metade do gene funcionando e não forma o neurofibroma. Quem tem NF1, ficará sem a neurofibromina e então apresentará o neurofibroma cutâneo.

Assim, o número de neurofibromas cutâneos de uma pessoa com NF1 depende do tipo de mutação que ela apresenta (alguns tipos causam mais, outros menos neurofibromas), mas a quantidade de neurofibromas cutâneos sempre será proporcional à idade daquela pessoa: quanto mais idosa, mais tempo houve para ocorrer a segunda mutação que deu origem ao neurofibroma cutâneo.

Por fim, um neurofibroma cutâneo demora anos para se tornar visível porque ele começa em uma única célula (que sofreu a segunda mutação), a qual então começa a se multiplicar descontroladamente, formando clones dela mesma: 2, 4, 8, 16 células, e assim por diante. Para se tornar visível, o neurofibroma cutâneo precisa conter milhares de células, ou seja, neurofibromas que começaram aos 8 anos, por exemplo, podem se tornar visíveis apenas aos 12, 13, coincidindo com a puberdade.

Esperamos que algum próximo estudo científico possa comprovar ou desmentir essa hipótese.

 

 

Recebemos recentemente o guia de monitoramento e vigilância de longo prazo adotado pela Sociedade de Neurofibromatose de Ontário, no Canadá.

Sabendo que o Canadá tem um sistema de saúde que se parece bastante com o nosso Sistema Único de Saúde, achamos interessante comparar as condutas canadenses com as condutas adotadas no nosso Centro de Referência em Neurofibromatoses do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

Nossas condutas foram estabelecidas a partir da experiência internacional (como, por exemplo o manual do Colégio Americano de Genética Médica e Genômica) e da nossa experiência acumulada nas duas últimas décadas com cerca de 4 mil famílias atendidas.

Em todo atendimento em nosso CRNF fazemos um relatório que é encaminhado à Unidade Básica de Saúde do SUS da residência da família atendida, solicitando que seja realizado o acompanhamento pediátrico, que é bastante semelhante à orientação canadense, como mostra a Tabela 1.

Tabela 1 – Orientações clínicas ANUAIS para crianças e adolescentes.

Canadense CRNF
Medir crescimento, desenvolvimento, circunferência da cabeça, pressão arterial (de 6 em 6 meses) Mesma conduta (pressão arterial: se uma medida alta, repetir em duas semanas)
Avaliar coordenação motora, necessidades de fisioterapia/terapia ocupacional, desempenho escolar e aprendizagem Mesma conduta
Identificar dores, mudanças funcionais ou mudança no tamanho/textura dos tumores massas. Mesma conduta
Status da vitamina D e monitoramento da saúde óssea Mesma conduta
Audição e equilíbrio e triagem visual Mesma conduta
Triagem de saúde mental Mesma conduta
Ressonância magnética baseada nos sintomas

Neurofibromas plexiformes: a cada 6–12 meses se estiverem em crescimento; Neurofibromas plexiformes a cada 1 a 3 anos, se estáveis

Ressonância magnética baseada em sintomas.

Não adotamos prazos fixos para repetir ressonâncias sem sintomas novos.

Glioma da Via Óptica Conhecido: a cada 3 meses → a cada 6 meses → ano (se estável) Ressonância magnética baseada em sintomas.

Não adotamos prazos fixos para repetir ressonâncias sem sintomas novos.

Suspeita de Tumor da Bainha do Nervo Periférico Maligno: urgente

Ressonância magnética + difusão

Mesma conduta e em alguns casos acrescentamos PET CT

 

Tabela 2 – Indicações para ressonância magnética

Canadense CRNF
Sintomas neurológicos progressivos Mesma conduta
Novas mudanças na visão Mesma conduta
Massa nova ou crescente Mesma conduta
Dor profunda persistente ou noturna Mesma conduta
Mudança na textura do tumor Mesma conduta
Suspeita de compressão da medula espinhal Mesma conduta
Progressão rápida da escoliose Mesma conduta
Suspeita de Glioma da Via Óptica Mesma conduta

 

Em conclusão, nossas condutas são bastante semelhantes às condutas canadenses.

É importante reforçar que na Sociedade canadense assim como no nosso CRNF a ressonância magnética não é um exame rotineiro para:

  • Neurofibromas cutâneos estáveis
  • Indivíduos assintomáticos sem características preocupantes
  • Apenas dificuldade de aprendizagem
  • Dores de cabeça leves estáveis

 

Esperamos que o SUS seja capaz de fortalecer o atendimento pediátrico nas Unidades Básicas para atender as demandas de nossas crianças com NF1.